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Acomode-se

Escolha seu destino dentro deste submundo.

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    O bar tem seus intrusos.
     Em meio ao grande fluxo de pessoas com seus sentimentos, bons ou ruins, aflorando, eu reparo também naqueles que mais estão escondidos, os tais intrusos. São animais que fazem parte da flora do Cão Andaluz, que caminham por ali e por aqui. Hoje, por exemplo, eu vi um rato fugindo da porta dos fundos, atravessando o bar inteiro, correndo para dentro do banheiro. Sua atitude me lembrou muito os homens e mulheres que simplesmente se acabam em bebidas das mais fortes e não aguentam, preferindo vomitar tudo o que sentem, tudo o que consumiram.  
     Eu também reparo nas moscas que rodeiam as mesas que se sujam com bebidas e aperitivos. Elas pousam e esfregam as patas como se estivessem se preparando para a refeição, eu quase posso ver suas línguas para fora, salivando, se elas tivessem alguma. E essas moscas param ali, aproveitando o mel do álcool, como se fossem pessoas, que estão por ali absorvendo da forma mais suculenta possível todas as minhas bebidas.
     Vez ou outra um cachorro faminto aparece na minha porta, e dou um pouco dos meus restos para ele. Também alimento a mendiga, mas passo a mão na cabeça do cachorro, e é ela que passa a mão na minha cabeça. Gosto de observar os dois também, abandonados, mas ainda vivendo como devem viver. Sem muitas escolhas.
     Eu entro no banheiro quando o bar fecha e tento espantar o rato. Ele se esconde atrás do vaso sanitário, guincha quando eu aponto a vassoura para ele, que corre para fora. Ele continua seguindo, apressado, em desespero, para fora do bar, pela mesma porta que entrou. Eu prefiro não matá-lo. Também é, de certa forma, um cliente. Alguém que vem até aqui e vê meu bar como um refúgio. Outro dia ele vai voltar, e eu vou ter que espantá-lo novamente. Mas não vou ousar expulsá-lo para sempre. Ele faz parte do meu bioma. De minha fauna.

     E existem pessoas tão sujas quanto esse rato, se não mais, convivendo comigo, aqui, no meu bar.  
    

    Escuto o som dos meus próprios passos ecoando pelo Beco e ele me parece o som de alguém caminhando novamente para dentro de si mesmo.

    Passei tanto tempo longe, mas a luz daqui continua com a mesma tonalidade reconfortante. Corro minhas mãos pelas paredes e sinto a textura que me abraçou nos meus dias mais terríveis.

     Quase ao amanhecer, eu escuto o som do telefone tocar. O bar está vazio e vou atender. Ponho minha vassoura de lado e caminho até lá, me perguntando o que poderia ser a essa hora.
     — Alô. — Digo de forma mais desanimada possível. Odeio atender telefonemas. Sempre são tão inúteis, um método de comunicação nada funcional onde qualquer um pode dizer o que for e a verdade será desse jeito.
     Quero desligar o telefone nesse exato momento.
     —  Alô. Qual o seu nome? — Diz a voz o outro lado.
     — Não trabalho com nomes. Diga o que quer.
     As pessoas geralmente usam o telefone para pedir. Sempre para isso. Seja para pedir conselhos ou para pedir que a pessoa do outro lado da linha se acalme porque a notícia que virá não é nada boa. Geralmente é para pedir que comprem seus produtos ou para pedir que contem ou ouçam seus problemas. Uma besteirada só.
     — Estou pensando no suicídio, mas eu preciso da opinião de um estranho. Disquei qualquer número que me veio à mente e caiu aí. Preciso que me diga o que fazer quanto a…
     — Se mate, é isso que lhe digo.
     — Mas você não ouviu minha história!
     — E nem ouvirei. Mas se você tem dúvidas é porque há motivos. A morte sempre é bem vinda nesses casos.
     — Você não é a favor de lutar? De erguer a cabeça? De ser corajoso?
     — Quase sempre a vida não vale à pena e é preciso ter muita coragem para encerrá-la. O suicídio é apenas uma escolha, como decidir se você vai cursar direito ou medicina. O que importa é o que seu coração manda e não há como voltar atrás.
     — Mas se matar é definitivo. Você pode trancar direito e ir para medicina, por exemplo. Mas não pode fazer nada parecido com a vida e com a morte.
     — Para se matar exige coragem. Não há como voltar atrás. Manter-se vivo sem ambição ou objetivos, isso para mim é covardia. Você mantém uma semi-vida e tem medo de mudá-la, nem que seja drasticamente, encerrando-a. Eu prefiro estar morto a não desejar nada ardentemente. Mas você parece estar lutando demais. Queria ouvir que eu dissesse para não estragar sua vida com pensamentos negativos? Eu digo apenas: mate-se. É melhor e você será mais feliz assim. Viver é ser infeliz. Não sei quais são os seus problemas, mas se você não consegue resolvê-los ao ponto de achar que morta estará melhor, que seja. Queria um conselho. E eu lhe dei o meu.
     Silêncio do outro lado. Por um minuto inteiro.
     — Sabe o que eu farei? Consertarei tudo o que houve de errado na minha vida até agora. A morte como última alternativa. Eu realmente não tinha alternativas, mas agora eu tenho. Minha ambição é consertar toda a cagada da minha vida. Obrigada pelo conselho.
     E desligou.
     Após essa conversa eu chego a uma conclusão. As pessoas pedem conselhos porque querem contar seus problemas. Não porque querem realmente ser aconselhadas. Geralmente elas costumam fazer o oposto do que dizemos, ignorando totalmente o que falamos.

     Talvez a melhor alternativa seja usar a psicologia reversa, afinal. 

     Corto rapidamente o limão, preparo o sal e encho o copo de dose com tequila. Entrego ao freguês que toma praticando aquele ritual quase que sagrada. Sal, tequila, limão. É quase sacrilégio não obedecer a ordem.
     — A tequila é a minha bebida favorita para esses momentos. — É o que o freguês me diz, e pede outra.
     — E que momentos são esses?
     — Momentos para fazer festa. A tequila é uma bebida sempre sorridente.
     — Essa é uma clara personalidade dela. — Digo. — Ela te deixa feliz rapidamente e seu ritual é ótimo para fazer com duas ou mais pessoas. É uma bebida coletiva, acima de tudo.
     — Sim. É diferente do conhaque, por exemplo. Bebida depressiva. Quando você quer se afundar, o conhaque é a melhor pedida.
     — Isso porque ele esquenta. O conhaque esquenta almas frias. Almas em desespero.
     — Quase como a vodca.
     — Eu vejo a vodca um pouco diferente. Ela foi feita para embriagá-lo sem importar o motivo. Se você está feliz, ou triste, ou com raiva, a vodca é a solução. E seu gosto unicamente forte é o que lhe questiona se você está preparado para ela ou não, quase como um teste pessoal.
     — Uma bela defesa da vodca, essa sua, mas se quero me embriagar, eu prefiro a tequila. Tão forte quanto e ainda mais saborosa. Sabor de alegria.
     — Assim como o rum, que misturada se tansforma em cuba libre.
     — Aí sim você está falando a minha língua. O cuba libre é uma versão aprimorada da tequila. Um coquetel de felicidade e ousadia batidos com gelo. O que me faz pensar no fato de as mais quentes bebidas, e falo no sentido de sentimentalismo mesmo, são as com nomes latino-americanos. Seria esse um povo mais feliz?
     — Eles produzem uma ótima aguardente. Falo do povo da América Central, no geral. Bebidas bem fortes. E sabe por que eles devem ser mais felizes?
     — Por quê?

     — É impossível ser infeliz embriagado. 
  Comprei meu estoque de bebidas com o dinheiro roubado da carteira dele. Me sentei no chão confortável — depende do ponto de vista, do Beco Bêbado, alinhei as garrafas por trás das curvas do meu corpo, cobri-as com meu casaco, botei meu cigarro e isqueiro no colo, encontrei a lua no céu e agora posso começar minha noite de solidão.

   Não tem som e eu canto, assim como não há mais vida e mesmo assim eu vivo. Só canto para ver se o sono vem antes da segunda garrafa. Me isolei aqui hoje porque virou costume não ser mais do mundo. Aliás, ando me afastando de qualquer multidão que faça eu me sentir só. Estou muito deslocada e apenas as bebidas aguentam penetrar meus problemas. As pessoas me veem assim perdida e fogem, que é para não se perderem também. Aos poucos vou precisando cada vez mais de mim e, nessa necessidade, me embriago para aguentar o peso de tudo o que sinto. Só não sei quando foi que escolhi sentir tanto.

   Há duas coisas boas sobre estar aqui: 1. O Beco sempre me acolhe; 2. Em toda noite como essa o Beco se torna meu telescópio. Eu estou segura e posso passar horas vendo o que tem lá pra cima, em completo conforto.

   Começo a me sentir uma gentinha dessas que não se encontra nos olhos de ninguém, que se sente outra coisa não-explicada do universo reduzido a este planeta egocêntrico. Uma estrelinha que não se mistura com as outras, e fica bem lá no canto fazendo protesto silencioso contra as constelações. E se eu for mesmo essa coisa única sem significado no dicionário ou em qualquer outra compilação de conceitos e definições, quem poderá me encontrar para desmentir? De toda forma, estou a salvo.

    Ainda que eu pareça uma carta fora do baralho pisada nos finais do Beco, ainda que eu acredite ser a carta coringa que é tão boa que ninguém encontra nas belezas do Bêbado, sou uma pessoa só nessa existência toda sendo o que é bom para mim. É o que importa ou deveria importar, não é? Me salvar de mim e dos outros faz parte da sobrevivência, mesmo que para isso eu me encha de ilusões, ficções ou realidades boas demais para aquéns.

   Abro outra garrafa. É o melhor lugar em que posso estar, com a melhor pessoa com quem posso estar. Eu e o Beco. Eu poderia não sair dele nunca mais.


    Eu tenho uma teoria que diz o seguinte: todo bar, sem exceção, tem uma aura. É como se fosse sua alma, sua personalidade, trazida até nós através do seu ambiente e de seus fregueses. Quase como se esses bares fossem pessoas, inúmeras delas espalhadas por aí, pela cidade.

   Já conheci bares que são como empresários de classe média alta, sempre muito atraentes ao primeiro olhar, caros como devem ser, mas sempre superficiais. Sempre ligados ao dinheiro, mas sem espírito. Não é um bar que você deseje se entregar. Já conheci também bares que são alegres como a plebe e lá você realmente se diverte. Mas é um bar de único sentimento, onde qualquer outro além da alegria não é bem vindo. E o ser humano não é um único sentimento, mas um vasto caleidoscópio deles. E tem o meu bar, claro.

    O Cão Andaluz é uma pessoa embriagada até a alma, com os sentimentos batidos no liquidificador e misturado com vômito.

   Daqui do balcão observo pessoas chegando ainda sóbrias, todas com suas vidas e seus próprios problemas. Todos nós temos problemas pessoais, eu sei, mas o Cão Andaluz é convidativo para os piores. Vejo-os começar a beber e a fumar, no início alegres, mas as máscaras caem e a pessoa verdadeira se revela. Aquela que sofre, que não precisa se esconder do julgamento social. Uma garrafa de uísque é mais potente que qualquer soro da verdade, e muito mais deliciosa. Três doses de conhaque podem esquentar o frio de sua alma. Traga a garrafa de vodca para a pessoa mais sofrida.

   Então meus fregueses choram com suas canções, cantam-nas em voz alta. Cada uma com uma importância pessoal. O ambiente, com sua constante fumaça de cigarro e as luzes neón torna-se lúdico, embriagado. E tão maravilhosamente hostil e acolhedor.

    O Cão Andaluz é aquela sua mãe fumante e que te bate quando faz alguma merda, mas no fim de tudo é ela que te aconselha e te acolhe nos piores momentos. 

   Noite adentro e aqueles que chegaram sóbrios e sozinhos saem acompanhados de amigos, os melhores, e todos choraram e reclamaram dos problemas da vida. E os esqueceram por um tempo, com a ajuda das inúmeras garrafas de cerveja, uísque, conhaque. Com seus problemas à flor da pele, e ao mesmo tempo pairando acima de suas cabeças, vejo-os se resolverem, finalmente. Concluírem suas questões existenciais enquanto se divertem.

    O Cão Andaluz é, acima de tudo, o playground do mundo. Ou a sala do mais estranho psiquiatra.


    É sempre ao fim do expediente que eu reúno as garrafas vazias, junto das latas que antes levavam algum alimento, e me desfaço na lixeira atrás do beco. Esse é o tipo de coisa que eu preciso fazer, me livrar de toda essa sujeira. Mas não jogo fora a comida; os restos dos aperitivos pedidos por meus clientes. Não, isso jamais. Eu sempre junto em uma quentinha e a levo para a parte de trás do beco, perto do lixo.
    O Beco tem uma inquilina e eu poderia dizer que é um cão, mas não é; é um ser humano. Uma mulher, uma mendiga. Ofereço o prato de comida a ela, que se senta na sua cama de papelão e começa a comer. Jogo fora meu lixo. E a observo ali, se alimentando.

— E se eu jogasse essa comida fora? — Questiono e ela olha para mim. — Se eu a misturasse com as bebidas vazias e os cacos de vidro dos copos quebrados? Como seria para você?

— Como seria? Olhe em volta, você acha que eu teria alguma opção? Eu iria seguir o meu instinto e se ele me direcionasse a cavar entre os restos do lixo para encontrar os meus… seria assim para mim.

— Impressionante. Falo da sua situação mesmo, não me olhe assim. O desperdício de outros é sua preciosidade. Seu diamante. E você depende disso. Isso me faz pensar um pouco. Em todo esse descaso com pessoas do seu tipo. O que lhes faz tão diferentes, tão dependentes? Acho que isso é um aspecto doente da sociedade. Sabe, diferenciar as pessoas de forma tão drástica assim. Melhor: um aspecto de uma humanidade doente. 

— Você diz “humanidade doente” como se fosse algo de todo ruim. Pare para refletir por um minuto no que temos aqui, com essa situação: o meu alimento, o meu sustento, é o que foi um excesso para alguém. E para mim, chega a ser uma falta. Nós temos esse tipo de doença e mesmo se fosse achada a cura, teríamos outra para humanidade e assim por diante. De certa forma é um ciclo ao qual nos dedicamos, não acha? Se você tivesse a oportunidade de erradicar isso, o que faria?

— É o que você disse: se não fosse isso, talvez fosse outra coisa. Faz parte de ser o que somos ser do jeito que somos. Faz parte do ser um ser humano manter-se como um câncer… para nós mesmos. Você está acostumada a essa sua situação e talvez não haja nada mesmo para remediar. E ninguém a culpar. Então eu lhe respondo a sua pergunta: e se eu pudesse erradicar esse problema, erradicaria? Minha resposta é não. É um problema que precisa existir. É uma necessidade nossa ter alguém embaixo de nós para sentirmos pena. Para olharmos e estalarmos a língua e fazer boas ações que na verdade fazem parte de uma hipocrisia universal. E eu não entrego esses restos de comida a você por pena, antes que venha falar algo. Entrego porque você sente fome, assim como eu. Que por mais que nos dividamos em sociedade, ainda temos esse lado animalesco dentro de nós. E entrego porque eu jogaria fora, de qualquer maneira. 

— Essa é a questão, de certa forma sou eu… e eu aqui nesse Beco. Se me sobrar algo dessa marmita, não será por desperdício ou nem nada, mas sim poção para eu ter confiança de que terei algo a mais no dia seguinte, me entende? Segundo a sociedade, eu não tenho ninguém para sentir esse seu tipo de pena além de mim, mas é aí que eu me divirto. Eu me divirto por saber que todos estão errados ao exaltarem que os penosos são os que vivem como eu, sem nada para ostentar. Mas quer saber a verdade? Eu já estive do outro lado e tenho muito mais o que ostentar agora do que já tive em toda minha vida.

— Revela-se muito mais que um cão, Mendiga. Alguém de personalidade. Alguém que não merecia estar desse lado. Talvez do meu lado, quem sabe, se isso fizer qualquer tipo de diferença. Você ostenta decisões, mulher, que valem mais do que dinheiro. Ostenta visão, e isso é impressionante. Levante-se daí, vamos aproveitar que não há sociedade nenhuma aqui nos olhando. Divida uma garrafa comigo e me deixe ser o pedinte da noite. E pedir para ouvi-la falar mais.