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O Dom da Observação

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Antes de ser o dono do Cão Andaluz, um bar para pessoas fracas e doentes, antes mesmo de viver à margem da sociedade, servindo às pessoas que realmente necessitam de ajuda, eu sou um observador. Talvez eu tenha nascido com esse dom, talvez eu o tenha adquirido durante a vida. Não importa. Eu nasci para observar. 
Observar tudo e todos. 
Tenho para mim que existem dois tipos de pessoas no mundo: os protagonistas e os observadores. Os protagonistas são aqueles que vivem as histórias, sejam elas boas ou ruins. Os observadores são os sábios, aqueles que tomam para si o conhecimento da história alheia, mas não vivem a sua própria.
Ou não necessariamente, porque a sua própria história é ver e refletir a dos outros. Isso é o que forma seu próprio eu. 
Como um observador nato, eu me mantenho do lado de dentro do balcão do Cão Andaluz, com um pano na mão, secando um copo. Observo as pessoas entrarem, pedirem seus drinks e se sentarem. São os protagonistas que atravessam minha porta de madeira, cada um para viver sua própria história.
E para preencher a minha.
Vejo uma mulher se sentar em um dos bancos próximos ao balcão junto de um homem. Ambos parecem namorados, sempre de mãos dadas trocando beijos e carícias. Ela tem muita maquiagem e ele, alguns pelos espalhados pelo rosto, consequência de uma barba mal feita. Ela pede um conhaque, ele, uma cerveja. Eu os sirvo. E me mantenho de ouvidos atentos, observando-os.
É inevitável.
— Para onde você quer me levar ao sair daqui? — ela pergunta toda lasciva. Ele se aproxima dela, a mão que estava na cerveja desce para a cintura da mulher.
— Para minha casa. Para meu quarto. Para minha cama.
— Por que tanta especificação? A sua casa inteira pode se transformar em nosso playground.
— Se é assim que prefere, então é assim que será.
E eles bebem mais, se beijam e se apertam mais ainda e depois de ter a conta paga, saem do bar. E eu os encaro indo embora, imaginando como será a vida deles. Tanta devassidão, tantas carícias e palavras trocadas explicitamente; a maquiagem cheia da mulher também me mostra uma coisa. 
Eles são um casal novo. Duas pessoas que acabaram de se conhecer e que estão se divertindo juntos pela primeira vez. É capaz de terem se conhecido nessa mesma noite, parando de bar em bar para beber e trocar sugestões, até eles pararem finalmente um na casa do outro e viverem uma das mais animadas noites de sexo de cada um. E como será depois disso? Eles irão trocar números de telefone e se encontrarem novamente. 
Não. Nunca. Jamais.
Ela é apenas a diversão da noite dele e ele é apenas um escape dela de sua realidade. Sexo sem compromisso. É apenas isso que há entre aquele casal. É capaz de eles nunca saberem o nome um do outro. E de nunca mais se verem, nem cruzarem pelo mesmo caminho.
E da mesma forma outro casal entra pela porta do bar, mas dessa vez eles não estão agarrados como o anterior. Estão um ao lado do outro. Ele mantém a barba bem feita. Ela quase não usa maquiagem, mas seu olhar entristecido e sua tez branca lhe dão um aspecto terrivelmente bizarro; quase como se uma múmia deprimida entrasse em meu bar. 
Ela pede uma vodca, ele pede um uísque. Eles se sentam um ao lado do outro e trocam palavras sussurrantes. 
— Para onde você quer ir ao sair daqui? — ela pergunta. Não há nada de lascivo em sua voz; é como um viciado tentando a redenção; alguém que chora ao lembrar de seu passado no fundo do poço. Alguém que viu a luz no fim do túnel, mas se segura para não acabar voltando para o ponto mais escuro.
— Para minha casa. Para meu quarto. Para minha cama — ele diz e se mostra cansado. 
Eles bebem mais um pouco. E depois de pagarem a conta, saem de lá. E eu os observo saindo, mantendo-se afastados um do outro como se uma barreira protetora os impedisse de se aproximarem. E eu os entendo.
Diferente do casal anterior, esses dois se conhecem há muito mais tempo. Eles são casados e têm filhos. Mas ambos estão passando por algum tipo de dificuldade. Eles não se amam mais como se amaram algum dia. Somente os filhos os mantêm atados um ao outro, como um laço pesado como aço. Eles pedem bebidas fortes para poderem esquecer os problemas. Para chegarem em casa e dormirem, deixando o inconsciente tomar conta. 
Não haverá sexo. Eles dormirão um do lado do outro, mas não pensarão no próximo. Apenas tentarão tirá-los da mente. Como se não existissem. Lembrarão do tempo em que eram solteiros e perceberão que era melhor naquela época. E aí, eles irão se separar?
Não, eu lhes digo; os filhos ainda vão manter o casal. Talvez o sexo diminua drasticamente, passando para uma vez a cada seis meses. E será insuportável se manter no mesmo recinto com o outro. Mas eles ficarão juntos até o fim. Porque essa é a vida que eles escolheram. 
E não há nada a se fazer. 
Essas pessoas protagonizam suas próprias histórias, vivendo-as calmamente, tentando seguir seus próprios caminhos. Seja algo tão simplório quanto uma noite de sexo sem compromisso ou como a complexa decisão de um possível divórcio. E eu, como observador, me mantenho olhando, aprendendo com eles, entendendo cada pessoa que atravessa aquela porta de madeira. Qualquer pessoa que pede um uísque, uma vodca, um conhaque, uma cerveja. 
Eles vivem impulsivamente, protagonizam as coisas que fazem o mundo rodar; eu me mantenho aqui, pensando demais, do outro lado do balcão, servindo suas bebidas.

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